"Restaurante de Tormes", Tormes, Baião
- Brutus
- 9 de jan. de 2019
- 6 min de leitura
Atualizado: 17 de mai. de 2019
Olá malta Tasqueira, Antes de mais, votos de um excelente ano de 2019 para tod@s os nossos Tasqueir@s, e que este ano seja recheado de muita e boa Gastronomia, muita Amizade e acima de tudo muita Saúde. Estes são os meus votos para tod@s vós e para aqueles que vos são mais próximos.
E que tal essa festa de Réveillon? Dura ou Soft? A minha posso-vos adiantar que foi ao nível da malta que me acompanhou, e que por acaso até fazem parte do Staff Técnico aqui da Tasca, ou seja espetacular.
E terminadas as festividades, nada melhor que trazer até vós o relato de uma experiência que tive no passado dia 5 de Janeiro, Sábado, num almoço comemorativo dos Reis. Juntamos um grupo de 7 amigos que começou por ir tomar o pequeno almoço ao centro de Penafiel, que infelizmente não acompanhei desde o início, para depois seguir para a gloriosa cidade de Baião, mais precisamente para a freguesia de Santa Cruz do Douro, lugar de Tormes, onde almoçamos no fantástico Restaurante de Tormes, também conhecido por restaurante da "Fundação Eça de Queirós".
Passo a explicar um pouco do enquadramento deste belíssimo espaço com uma vista deslumbrante, e a sua relação com Eça de Queirós e a sua obra. Foi precisamente na casa adjacente ao restaurante que Eça de Queirós chegado de uma viagem a França, passou alguns dias e se inspirou para algumas partes do seu livro "A Cidade e as Serras". Ao visitarmos este belo espaço, podemos ainda fazer uma visita à "Casa de Tormes", onde Eça viveu e vislumbrar alguns dos seus pertences pessoais, muitos deles carregados de história e simbolismo.
Para que uma visita à Fundação e ao Museu seja colmatada da melhor maneira, nada melhor que terminar a experiência com uma refeição no "Restaurante de Tormes", que está sob alçada de uma das maiores promessas da cozinha portuguesa, o Chef António Pinto, que conjuga na perfeição os tradicionalismos da gastronomia baionense com o vanguardismo que um restaurante neste enquadramento exige.
Feitas as apresentações e os enquadramentos histórico-culturais, passemos então à parte mais apetitosa da nossa visita: O almoço... Chegamos por volta das 14:00 e fomos recebidos pelo Chef António, que após 2 dedos de conversa nos acompanhou até uma mesa redonda com capacidade para 8 pessoas, e onde nos foi servido o almoço.
Comecei por reparar na decoração totalmente enquadrada com o tema de tudo o que nos envolvia: Eça de Queirós e as suas obras... Um belo quadro destacava-se numa das paredes com a figura do escritor, e salienta-se também um piano encostado a uma das paredes que apesar de estar meio estragado, serve perfeitamente aquilo a que dispõe: decorar. Além disso, destaco também um móvel antigo onde podemos encontrar uma antiga balança semelhante às usadas nas mercearias típicas do século XIX e ainda alguma obras antigas. Por fim, uma salamandra, que é bem necessária para aquecer o ambiente, e perfeitamente enquadrada no restante ambiente, que era alimentada de quando em vez por toros de madeira para manter a temperatura.
O almoço era já especial, contudo, tornou-se ainda mais especial quando o Chef António Pinto aceitou o nosso convite para se juntar à nossa mesa e almoçar connosco. A sua presença ajudou a polvilhar esta experiência com uma maior dose de boa disposição e conhecimento.
Como não tínhamos decidido nada sobre o que seria o prato principal, colocamos a pressão no Chef António que nos aconselhou o prato tradicional que Eça de Queirós comeu aquando da sua chegada à "Casa de Tormes": nada mais, nada menos que frango alourado com arroz de favas... Sinceramente o menu não era muito apelativo para o meu gosto, mas como sabia de antemão que antes disso haveria uma sessão de entradas divinais, não fui contra a corrente e embarquei nesse pedido. Para beber, e também recomendado pelo Chef, o vinho de produção própria denominado pura e simplesmente "Tormes", que deixem que vos diga é uma excelente escolha e que combina na perfeição com o menu selecionado. Um vinho branco de zona de transição que combina a leveza dos verdes com os sabores frutados dos maduros. Poderíamos ter optado por outra escolha, pois a carta de vinhos assim o permitia, mas deixamos para quem percebe do assunto... Começaram então a chegar as entradas. Servidas pela simpática Vânia, uma jovem que já põe em prática as boas regras da arte de servir à mesa e que à sua técnica exemplar junta uma boa dose de bom humor e simpatia, que é impossível ficarmos indiferentes.
Comecei por uns cogumelos shitake salteados envolvidos por um molho tipo bechamel, com um sabor muito diferente do normal, onde se destaca a acidez do vinagre balsâmico. De seguida, fiz questão de provar os bolinhos de bacalhau caseiros. Bem recheados e com a fritura certa, era um regojizo a cada trinca. A entrada seguinte a ser provada foram uns peixinhos da hora, quentinhos, tendo saído há pouquíssimo tempo da fritadeira. Quem me conhece, sabe que abomino feijão verde (aka vagens), mas não sei porquê os peixinhos da horta de Tormes, caem-me sempre bem e não faço sacrifício algum em comê-los. Pelo meio, uma alheira de caça, que emanava um cheirinho a fumo extremamente atrativo. Faltava saber se o sabor era semelhante ao cheiro que me deslumbrou... e era... fantástica alheira. Semelhante às alheiras das aldeias escondidas de Portugal, que dispõem de um sabor que só as carnes dessas regiões mais recondidas possuem, graças aos pastos únicos das suas terras. Depois disso, as famosas tiras de porco em vinha d´alhos que transbordavam de sabor e os pastelões de salpicão que são de revirar os olhos, tamanha é a qualidade dos enchidos envolvidos num pastelão de ovo super suculento e pedacinhos de salsa.
Depois de comidas as entradas e muita conversa sobre assuntos vários, eis que a simpática Vânia começa por trazer o frango alourado, que dispunha de uma cor bastante apelativa e que depois de provar deu para perceber que tinha um nível de fritura no nível certo para que o frango não ficasse seco. Sem grandes temperos e fiel à receita que Eça de Queirós comeu aquando da sua chegada a Tormes. Logo de seguida, chegou o rei da festa: O arroz de favas... bem malandrinho e com pedaços de salpicão caseiro a boiar no meio do arroz e das favas para assegurar um gostinho especial. Apesar de não ser apreciador de favas, aquele arroz, só de olhar até fazia babar de tão malandrinho e com de tão bom aspecto que apresentava. Expus as minhas reticencias relativamente ao facto de conter favas e rapidamente fui interrompido pelo Chef, a dizer que não sabia a favas, o que realmente se veio a comprovar. O sabor que sobressaía mais até era do salpicão, o que para mim estava ótimo...
Resumindo, um belo repasto com uma combinação de sabores que foram um autêntico regojizo para o palato. Uma verdadeira ode aos paladares típicos da região baionense. Como sobremesa e para aconchegar a gula, nada melhor que um leite creme, que consigo classificar como um dos melhores que já comi nestas aventuras gastronómicas. Bem ao nível do que me foi apresentado n´"O Antunes". Embora com um sabor diferente do normal, a fazer lembrar um pouco o sabor da massa tradicional dos bolos enquanto está cruz, é sem dúvida alguma uma lufada de ar fresco para terminar a refeição.
Os preços podem variar, contudo, em média o valor normal de uma refeição com estas características ronda os 25 Euros por pessoa, o que, dada a qualidade apresentada nos produtos que vêm para a mesa, a simpatia e eficiência do serviço e envolvente de toda a paisagem que nos rodeia, é sem dúvida alguma um preço mais que justo. Resumindo e concluindo, deixo-vos a minha classificação de 0* a 5* relativamente ao "Restaurante de Tormes":
Ambiente: 9
Comida: 8.5
Serviço: 8.5
Limpeza: 8.5
Preço: 8.5
Total Geral: 8.6
Espero que tenham gostado desta fantástica experiência que tão cedo não irei esquecer...
Visitar Tormes é uma experiência daquelas de saco cheio... Cultura, gentes simpáticas e uma gastronomia de por o nosso palato aos saltos de tão rica que é. O restaurante "Tormes" consegue conciliar tudo isso, graças à envolvente geográfica e ao vanguardismo do sangue novo e classe da cozinha portuguesa que podemos encontrar personificados no Chef António Pinto e sua equipa. Apenas de salientar que para além deste restaurante mais intimista, o restaurante "Tormes" dispõe ainda de um salão específico para eventos de maior envergadura, mas assegurando sempre a qualidade que o caracteriza tanto no serviço, como na comida. Visitem Tormes, visitem a fundação Eça de Queirós e aproveitem para desfrutar de uma refeição digna dos Deuses. É sem dúvida um dia muito bem passado... seja a 2, em família ou com Amigos. Vale bem a pena todos os Kms e todas as curvas e contracurvas do caminho até lá. Deixo agora os agradecimentos para o fim... Tive o prazer de partilhar esta aventura com um grupo de amigos muito especial, entre os quais identifico o João Paz, o Nuno Ribeiro, o Hugo Machado, o Carlos Lascasas, o Raul Valle e o Manuel Pinto... Um abraço muito especial também para o Chef António Pinto, que fez jus ao tema do almoço, e que nos tratou como autênticos Reis... A todos eles o meu muito obrigado por mais esta viagem gastronómica.
Abreijos
Brutus - 07/01/2019
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